AS NUVENS DE TRIGO NO ESPELHO DO MAR (Lembrancas da Quarentena 6)
Para poder situar o ano desta minha lembrança, que com certeza tem mais de 60 anos, procurei muito no “gugo” a notícia de um navio carregado de trigo que encalhou na Praia Grande, no litoral sul, derramando toneladas de trigo no mar. Ainda não encontrei nada sobre isso, mas vou continuar procurando. Mesmo assim vou contar mais essa lembrança .
Desde muito nova, talvez desde 8 ou 9 anos de idade, minhas férias eram passadas na casa do Catulo Branco e da Titina, no Suarão , litoral sul de São Paulo. Era maravilhoso, o dia inteiro na praia e noites de pescarias de siris, fortunas e manjubas que eram cozidos e fritos num fogão a lenha, em torno do qual a família ficava até de madrugada comendo e conversando.
E as tardes então? ou melhor, os fins de tarde… a criançada morrendo de frio, com a boca roxa e as mãos enrugadas de tanto banho de mar, corria para cobertura de sapé e trocava o maiô molhado, por uma roupa quentinha e começava a caçada aos siris… centenas de siris azuis: 200, 300 que iam sendo colocados numa lata de 18 litros que ia pro fogão a lenha. As fortunas faziam uma sopa deliciosa, com leite, manteiga, cebolas e as manjubinhas eram fritas grudadinhas umas nas outras pelo rabinho com farinha, em leques dourados, crocantes e saborosos, que coisa mais gostosa. Comíamos ao som de historias, cantorias e causos… inesquecível isso!!!!
Voltando para a praia, já na roupa quentinha com a lata cheia de siris e fortunas, de repente parava tudo… comecava aquele vento forte que fazia as ondas formarem grandes montanhas de uma espuma amarelada, consistente e com cheiro gostoso, meio azedo, meio doce, que se formavam com o trigo que caiu do navio encalhado e fermentou no mar.
Que coisa mais linda! Aquele espelho gigante, formado pela baixa da maré , as ondas lá longe e o vento empurrando as montanhas de espuma com mais de três metros de altura, que ficavam cor de rosa, refletindo a cor do por do sol... a espuma não desmanchava e seguia deslizando pela praia até onde a vista não alcançava mais... Que presente para os olhos e o coracao da gente.
Depois, a magia acontecia… As nuvens de espuma deixavam de ser rosa e se tornavam lilases, roxas e azuis e o céu ia escurecendo até que não víamos mais as nuvens, só a lua com sua estrelinha companheira e depois aquele monte de estrelas. Era a hora de passar o picaré, que vinha cheio de manjubinhas com listras prateadas.
Acho que a vida era muito mais bonita naqueles tempos… ou a gente enxergava melhor as coisas lindas né ! Saudade de viver isso de novo gente!!!
Dorinha Sanches SantAnna
Sao Paulo, Campo Belo, Quarentena do Conavirus19
Abril;2020

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