EM CIMA DO TELHADO (A malha cor de Rosa) - Outubro de 1970( Lembrancas da Quarentena 8)
Se alguém visse aqueles dois em cima do telhado, ja há mais de duas horas conversando, pensaria : - o que sera que fazem no telhado há tanto tempo! Comecou a chover e eles nem notaram… que perigo, era terceiro andar e as telhas estavam molhadas…
Pois é, vou contar sobre o que falavam:
Na véspera do meu casamento, eram dez ou onze da manhã quando acordei ouvindo a voz do Tadeu que estava conversando com meu pai na cozinha, eles eram muito amigos, as vezes ele passava lá em casa pra conversar, era muito querido por todos. Ele tinha vindo para dar um jeito na antena da TV.
Na penumbra do meu quarto comecei a lembrar de como o conheci. Eu tinha uns onze ou doze anos e acho que me apaixonei por ele quando o vi, tao pequenininho, no trapézio do circo. Quando terminava o número, o circo vinha abaixo milhões de aplausos! Ele não era artista, era apenas o filho do vizinho que cedia a luz elétrica para o circo poder funcionar, em troca eles ensinavam o Tadeuzinho a dar vôos no trapézio. Quando o circo ia embora ele continuava a dar espetáculos na rua, fazendo acrobacias com tambores e cordas. Era o rei da rua… os meninos o admiravam e invejavam e as meninas, todas o amavam.
Eu sai um pouco das minhas lembrancas quando ouvi o barulho do alçapão e da escada colocada para ele subir no telhado. Cobri a cabeça e continuei a pensar na minha adolescencia… Lembrei que tinha uma melhor amiga, a Tania que, como eu, era apaixonada por ele ; nós suspiramos juntas durante algum tempo mas, como sempre acontece, quando ele resolveu escolher, a amizade acabou… advinha… ele me escolheu.
Eu ja estava com treze anos e aquele foi o dia mais feliz da minha vida, claro que eu não sabia que a gente tem centenas de dias mais felizes da vida!!! Ele tocou a campainha lá em casa e quando abri ele estava lá parado, pálido que nem um fantasma, acompanhado de um de seus amigos, o Geraldo.
O que ele disse, eu não consigo lembrar, sei que havia muita emoção. Só lembro do beijo, foi o meu primeiro beijo, rapido, puro, infantil. Corri para dentro, subi as escadas correndo sem fôlego, fui direto para o meu quarto e me atirei na cama.
Tinha lágrimas nos olhos e uma tremenda dor de estomago, era só emoção, alegria e felicidade. Eu o amava muito, muito… e ele tinha me beijado!! Chorei, chorei, chorei muito.
O barulho de quando ele retirou as telhas para sair no telhado me tirou das lembrancas, entao tive uma idéia - vou conversar com ele lá em cima… Levantei apressada da cama, peguei na caixa do meu enxoval uma blusa de frio cor de rosa, linda, novinha, vesti por cima da camisola e lá fui eu pro alto do telhado, fiquei meio que com medo da altura, terceiro andar é uma loucura... criei coragem e fui !
Cheguei onde ele estava, estava toda suja de pó, nos bracos, no rosto, na malha nova mas nem me importei com isso, queria contar pra ele tudo o que havia lembrado a pouco.Queria saber se ele lembrava também, afinal eu iria me casar amanhã e nunca mais teria oportunidade de ter uma conversa assim com ele, sem ninguém por perto.
Quanto me sentei nas telhas ao seu lado, tive quase o mesmo friozinho no estomago que tinha cada vez que o via quando crianca. Ele estava tão perto que pude ver de novo seus olhos claros, cheios de pintinhas pretas na iris, a boca pequena, bem desenhada com uma pequena cicatriz, pele morena, o cabelo castanho claro. Puxa vida, fazia bem uns oito anos que não o via assim tao pertinho… desde os quinze anos.
A vida tinha nos separado depois daquele namoro adolescente… depois de centenas de horas de maos entrelaçadas, milhões e milhões de beijos ternos escondidos e de corridas malucas pelas suas sem asfalto. Não houve brigas, desencontros, choradeiras… Não deu tempo, simplesmente um golpe, um acontecimento politico que nada tinha a ver conosco nos separou. Me levou para muitos e muitos acontecimentos traumáticos que me trouxeram muito abandono, solidão, medo, quando tudo passou, foi impossivel recomecar.
Lá em cima do telhado, ele começou a falar, perguntou se eu ia mesmo casar amanhã e eu disse que sim, que amava meu noivo e sabia o que estava fazendo. Ele tornou a me perguntar se eu amava meu noivo como tinha amado ele e eu respondi - Não!!! era um amor diferente, adulto, tinha atração física, segurança, enfim, fui sincera pois quando nos amávamos, eramos crianças, era tudo muito diferente. Era amor também, mas diferente.
Nos calamos e entre nós dois criou-se um clima de tristeza, de perda, de saudade. Criei coragem e disse a ele tudo o que havia lembrado, pouco antes na minha cama, disse-lhe o quanto era importante na minha vida, afinal de contas ele tinha sido o meu primeiro e mais puro amor, tinha sido dele o meu primeiro beijo e isso nunca se esquece. Eu jamais o esqueceria. Nunca iria esquecer seu nome, seu sorriso, seus olhos claros com pintinhas escuras… tudo enfim, eu nunca esqueceria.
Falamos e falamos e rimos e nos emocionamos e não percebemos a chuva, a roupa molhada colada no corpo… Só lembramos da vida e do mundo muito mais tarde, quando meu pai, lá de baixo no buraco do alçapão gritou: - Algum problema ai??
Não, não havia problema nenhum.. Nós nos olhamos nos olhos, longa e profundamente,nos abraçamos, num abraço apertado, sentido, saudoso, um abraço de reencontro e de adeus. Não foi triste… foi carinhoso, emocionou, comoveu.
No dia seguinte me casei...os anos passaram, fui feliz, tive altos e baixos, tenho uma familia linda e cada vez que eu vejo alguém em cima de um telhado, sempre me lembro dele, de mim, da blusa cor de rosa que estragou, ficou manchada para sempre pelo pó, pela chuva, pelo abraço e pela saudade. A blusa , mesmo manchada, foi guardada por muitos anos como lembrança, depois foi dada a alguém que a tingiu e que nunca soube que foi usada uma única vez, por algumas horas, e que abrigou um corpo emocionado, molhado e feliz.
A lembrança e a saudade ficaram guardadas para sempre, juntas com aquele tempo que parou, gravado na imagem dos dois no telhado, a falar… falar… falar… e a recordar. Quem nos viu, se alguém nos viu, nunca saberá o que sentimos e nem porque estavamos lá, molhados e esquecidos do mundo.
Meu Deus!!!!!! como e bom recordar!!!!!
Dorinha Sanches SantAnna
Sao Paulo, Campo Belo, Quarentena Conavid19
Abril,2020
Dorinha Sanches SantAnna
Sao Paulo, Campo Belo, Quarentena Conavid19
Abril,2020

Voce é incrivel tenho muito orgulho de você ! continue assim sendo essa pessoa incrivel e com esse dom da escrita ... que eu NÃO HERDEI ... KKK
ResponderExcluirobrigada sua lindinha.
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