CULPA DA TELEVISAO ! (Lembrancas da Quarentena 7)


Era 1958, eu era muito nova e tinha que fazer um ano de curso para poder prestar vestibulinho para entrar no curso ginasial do Brasilio Machado que era considerada a melhor escola publica naquela epoca, e era dificil passar no teste.
Por isso fui fazer o curso preparatorio na ABF, Associacao Beneficente Feminina, lá perto da Igreja de São Judas. Nós moravamos na Carneiro da Cunha, perto da Praça da Árvore, muito longe para uma criança de 10 anos ir a pé para a escola mas, era assim que as coisas eram.
O curso era da uma às cinco da tarde e quase sempre eu chegava em casa bem depois do pôr do sol, já estava escuro, mas estava acostumada. Um dia, cinco ou dez minutos depois da hora da saida, quando já estava caminhando para casa, comecou uma tempestade daquelas assustadoras, com raios e trovões, ficou tudo escuro, acabou a luz da rua, e eu fiquei completamente desorientada, perdendo o caminho de casa.
Eu sempre fui corajosa, mas naquele dia estava muito desorientada e com medo, mesmo assim, continuei andando tentando achar o caminho de casa. Foi quando passei em frente a uma porta de bar semi aberta e lá de dentro ouvi uma mulher gritar: - oh meu querido, olha aquela menininha sozinha na chuva, traz ela pra dentro.
O querido daquela senhora, mais um rapaz, vieram até a calcada e delicadamente me levaram para dentro do bar. Estava na penumbra, com muitas velas acesas, pois a eletricidade ainda não tinha voltado. Eu estava com medo, no meio de um monte de estranhos, mas mesmo assim aceitei os cuidados e carinho daquela pessoa tão doce, com sotaque de portuguesa.
Me levou para sua casa , atraz do bar, me deu uma toalha, pediu para eu tirar as roupas molhadas e me deu para vestir uma roupa de uma de suas filhas. Me deu café com um pouquinho de conhaque, para passar o frio e “você não ficar com gripe”, ela disse. Me acalmou, perguntou meu endereço e prometeu que assim que a chuva parasse me levaria para casa.
Quando a luz voltou ainda chovia, mas, ela vendo a minha aflição chamou o seu “Querido” fez tirar o carro e me levou até em casa, que pra meu espanto ficava apenas a quatro quadras do bar. Quando chegamos, apesar da eletricidade já ter voltado, a casa estava as escuras e tinha uma luz estranha que refletia nas paredes da sala. Minha mae veio abrir a porta, nos recebeu normalmente, estranhei ela não estar preocupada pela minha demora. Agradeceu muito a senhora portuguesa por ter me trazido e disse que iria depois devolver o vestido que eu estava.
A doce senhorinha disse que não precisaria devolver o vestido, pois já estava pequeno para sua filha e tinha ficado lindo em mim. Despediu-se com um abraço caloroso e foi embora, toda contente. Eu subi as escadas e lá na sala percebi porque nao tinha ninguem preocupado com minha demora… tinha uma televisão, a primeira televisão que entrou na familia… era um luxo maravilhoso que todo mundo queria ter naqueles tempos. Eu fiquei tão animada com a surpresa que passou o susto, a tristeza. Ficamos todos acordados naquela noite, até acabar a transmissao da TV… Um chuvisco só… mas que novidade!!!
No dia seguinte, fui reparar direito no vestido que a senhorinha tinha me dado - um lindo vestido branco, com recortes azuis e todo bordado. Aquele sem dúvida foi o vestido mais lindo que eu tive na vida. Usei uns dois ou tres anos, pois estava meio grande pra mim, eu simplesmente adorava aquela roupa. A partir daquele dia, mudei o caminho de voltar da escola, só pra passar na frente do bar e dar um tchauzinho pra doce portuguesa.
Hoje penso, foi uma noite de imenso terror pra mim, e tive dois sentimentos: a noite de abandono pois ninguém tinha percebido que era tão tarde e eu não tinha chegado, e só na manhã seguinte, de extrema felicidade e agradecimento por ter ganho aquele vestido mais lindo que eu tinha visto na vida….

Culpa da televisao que foi o maior acontecimento naquele dia!!

Dorinha Sanches SantAnna
Sao Paulo, Campo Belo, Quarentena Conavid19
Abril, 2020

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