MAIS UMA HISTORIA DO GIBAO (Lembrancas da Quarentena 4)
Nossa biblioteca é muito usada pelos moradores de albergue, estudantes, e pessoas que vem apenas para usar o wi-fi, o banheiro, ou para beber agua e descansar um pouco do calor ou do frio da rua. Entre eles estão os policiais que trabalham no entorno, na ronda escolar. Para usar o banheiro todos passam obrigatoriamente na porta da Sala Temática, que é muito bonita e colorida e chama atenção das pessoas.
Alguns entram, olham os objetos, leem um cordel ou folheam um livro exposto, geralmente conversam um pouco comigo… histórias e mais historias, isso é maravilhoso!!
Uma tarde, logo após o horario do almoço, como quase todos os dias, um grupo de quatro ou cinco policiais passou na porta da sala e resolveu entrar. Um deles, parou na porta e ficou olhando, meio que estasiado para o gibão, aquele da outra história, lembra…
De repente o policial da porta olhou pra mim e disse: posso vestir? eu não entendi direito o que ele queria mas ele em seguida me pediu para vestir o gibão. Eu disse que sim e os outros policiais ficaram olhando espantados para ele.
O rapaz arrancou o colete a prova de balas que usava, fez aquele barulho caracteristico do velcro, colocou em cima da mesa e tirou delicadamente o gibão exposto, que estava “vestido num tambor”, vestiu com todo carinho, abraçou o proprio corpo e comecou a chorar, visivelmente emocionado, e disse:
Meu pai tocou gado a vida inteira e nunca deixou eu vestir o gibão dele, dizia que aquilo não era pra mim, que a minha vida seria melhor que a dele, que eu iria “estudar e ser gente”.
Eu e os policiais ficamos sem saber o que fazer, vendo aquele homão chorando daquele jeito. Dei um copo de agua pra ele, aproveitei e dei um abraço forte nele… eu me senti bem e ele também.
Voltei pra minha mesa, os policiais continuaram mais um pouco na sala, falando das suas lembranças da infância, de seus pais e eu fiquei la ouvindo, feliz da vida…
Como eu gosto do meu trabalho, que me proporciona momentos como esse.
Obrigada Senhor
Dorinha Sanches SantAnna
Sao Paulo, Campo Belo, Quarentena Covid19
Abril, 2020

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