O PESADELO DE 1964 E O ANJO SALVADOR! (Lembrancas da Quarentena 9)

Toda tensão que o isolamento que a quarentena proporciona e  agora a demissão do ministro da justiça, me leva lá para trás, a 1964, quando a minha vida de adolescente, um período tão delicado, teve uma mudança semelhante a um tsunami ou um terremoto de máxima intensidade .


Eram os últimos dias do mês  de março, tarde da noite,  dois homens muito conhecidos, ligados ao governo da época, entregaram lá em casa, na rua Carneiro da Cunha,  uma mala com 5000 dólares e pediram ao meu pai para tirar a família  do país, pois as coisas iriam “ficar muito feias no Brasil”. 
Meu pai, com receio de ficar com aquele dinheiro todo em casa - naquela época 5000 dólares era muito dinheiro - teve a infeliz e ingênua  ideia de pedir para um dos vizinhos guardar até o dia seguinte. Durante a noite, fizemos as malas para viajar na manhã seguinte mas, quando meu pai foi pegar a mala, constatou que o vizinho havia fugido. Ah… os dois políticos foram confortavelmente exilados fora do Brasil .
A solução foi sair de  nossa casa, e para isso, Marines minha irmã,  foi para a casa de uma família, eu para casa de outra e meus pais para outro local. De repente nossa vida mudou completamente… sem mais nem menos, ví minha família separada… não tinha noticias deles, nem minha irmã eu sabia com quem estava, onde estava, como se sentia… Eu me sentia abandonada, sozinha, perdida. Estava na casa de estranhos, lembro que a dona da casa trabalhava a noite no Brasilio Machado, a escola que eu estudava e  que também tinham medo, pois seus filhos,  estudantes da USP corriam riscos de perseguição.  Fui alojada em um sótão; era lindo olhar lá de cima… via um pedaço do telhado, a rua Loefgren, o arvoredo,  o parque infantil lá embaixo 
Continuei ir á escola, como se nada tivesse acontecido, eu não conseguia compreender a situação e sofria muito. Uma noite, estávamos jantando, bateram na porta e sem pedir autorização,  um monte de homens foi  entrando na sala. Fui levada para a cozinha e de lá pude ouvir quando disseram que o filho do casal tinha sido preso. O dono da casa, coitado, morreu na hora, do coração. Não deram nem chance da esposa dar um remédio a ele... .Foi tudo  muito confuso, e hoje , o que me lembro é que vieram me buscar de madrugada e finalmente fui juntada a minha irmã e levada para a Lapa, na casa da Tia Inês, aquela querida, que nos acolheu, sustentou, alimentou,  acarinhou, cuidou da nossa sanidade, naquele tempo tão difícil para nós. Depois eu soube que ela tinha  movido céus e terras para nos encontrar e nos reunir junto a ela. 
Não sei precisar quanto tempo passamos com a Tia Inês, foi um tempo relativamente bom, apesar de tudo. Eu estava na adolescência, tempo de descobertas e tudo era cor de rosa, não tive chance de ser “aborrecente”.  Marinês - a minha irmã - e todos os meus primos que moravam na Lapa íamos aos bailinhos de garagem, fizemos muitos novos amigos, todos nos queriam muito bem, isso ajudou muito a nos equilibrar emocionalmente.
O tempo passou e finalmente mamãe, papai, Marinês e eu, fomos reunidos novamente. Acho que foi o tempo mais feliz da minha vida (ainda não sabia que existem  muitos tempos mais felizes da vida!). Fomos morar numa casinha bem pequena de quarto e sala, no fundo do fundo de um quintal  que tinha um córrego lá atrás, que depois ficamos sabendo que era o sangradouro das caixas d'água da SABESP do Alto da Boa Vista.
Papai fez uma horta muito linda, que era alagada a cada vez que a havia despejo da água da sabesp ; mamãe pintava bonequinhos de neve feitos de plástico, brindes que eram distribuídos pela Frigidaire,  para ganhar algum dinheiro, era muito gostoso botar a cartolinha, os pezinhos e o cachecol do bonequinho… a sala ficava com o chão todo coberto dos bonequinhos olhando sorridentes para nós. Interessante como certas imagens ficam impressas tão nitidamente em nossas memórias! Nas minhas pesquisas hoje, ví um anuncio de venda de um deles como antiguidade. O tempo foi passando, mudei de horário na escola, apesar de papai ir me buscar no ponto de ônibus, depois das onze da noite, eu tinha muito medo de andar pelas ruas escuras e a cada vez por um caminho diferente, ficava angustiada com a possibilidade de uma nova separação. 
Isso não aconteceu e  graças a Deus, quando foi possível,  voltamos a nossa velha casa na rua Carneiro da Cunha, que tinha ficado fechada todo tempo nos esperando. Foi maravilhoso rever os amigos, voltar a conviver com os vizinhos. Até tentei reatar com aquele meu primeiro amor, o trapezista, lembra? mas que pena… tinha se acabado, ficado lá atrás, junto com a inocência da minha meninice, que também tinha ido embora.

Hoje, agradeço a Deus que colocou na nossa vida o anjo da guarda mais querido, solidário, amoroso, carinhoso e que cozinhava bem demais... Tia Inês minha Queridinha, você salvou nossas vidas e vou te amar por toda a eternidade.

Dorinha Sanches Sant Anna
São Paulo, Campo Belo, Quarentena Covid19
Abril, 2020

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