EU NÃO SOU DE CONFIANÇA?! QUE SORTE! (Lembrancas da Quarentena 13)

Em 2004, quando foi eleito o Prefeito Serra, eu trabalhava na subprefeitura da Capela do Socorro. Comeca a dança das cadeiras… O subprefeito que foi designado para lá, nem me lembro o nome dele, me informou que eu continuaria trabalhando normalmente na praça de atendimento, como fazia há 19 anos mas, ele teria que tirar meu cargo de chefia , para dar a “uma pessoa de minha confiança” - palavras dele!!
Indignada perguntei - então eu não sou de confiança? E estes 19 anos que estou ä frente da praça, que passei por seis prefeitos diferentes no mesmo cargo, que trabalhei no grupo de desenvolvimento do 156, junto ä PRODAN, na montagem das praças, desenvolvimento dos uniformes, e muitas outras coisas, não são um aval para o meu trabalho?! Ele respondeu: - claro que é de minha confiança também, tanto que vai continuar a exercer sua função normalmente, mas a senhora sabe como ë a política, temos acordos a cumprir.
Mais indignada ainda, eu disse a ele que não ficaria trabalhando naqueles termos e, já que ele levaria meu salário, pedi que liberasse minha transferência (naqueles tempos era muuuuito difícil transferência sem permuta) e colocasse a sua pessoa de confiança para assumir além do meu cargo, as minhas funções.
Ele meio a contra-gosto permitiu a transferência e eu, graças a Deus, aceitei o convite da Andrea Sousa , para trabalhar na Biblioteca Belmonte, um pouco preocupada pois eu não sabia nada de bibliotecas, pensava que era um lugar meio triste, sombrio, com pessoas muito sérias a pedir silêncio… como nos filmes né?! mas lá fui eu pra mais um desafio.
Cheguei meio ressabiada… estava muito magoada com a situação, me sentindo desvalorizada, rejeitada e, sem vontade de assumir funções lá na biblioteca e pedi férias… Sessenta dias de férias, para curar minhas mágoas, pensar na vida. A coordenadora, Kyomi, foi um anjo - permitiu. Foi exatamente aí que minha vida deu uma virada de 360 graus... Nesses sessenta dias, fui para Ilhabela, meu paraíso aqui na terra, mudei da minha casinha pequenininha, quente como um micro-ondas para uma outra casinha, também pequenininha, num gramado com tres coqueiros, com uma varandona que olhava para o mar, de onde vinha a brisa bem fresquinha e lá fiquei sozinha a maioria do tempo, olhando o pôr do sol, pensando e planejando o que fazer.
Aproveitei para fazer cortinas, pendurar milhões de coisas e luzes na varanda, deixei a casinha com a minha cara, tanto que nem queria mais vir embora pra São Paulo, mas, eu tinha que voltar.
Quando voltei, disposta a fazer dar certo minha temporada na biblioteca, não tinha ideia do quanto ficaria apaixonada por aquilo… O ambiente era muuuito alegre, barulhento, cheio de crianças das escolas do entorno, tinha a Iracy, contadora de história que fazia muitos desenhos, colagens, costuras, para ajudá-la nas contações, tinha o Sabino, maravilhoso artesão, contador, cantador e violeiro e outras coisas lindas mais, tinha a Andrea que tinha uma imaginação e criatividade como eu nunca tinha visto em ninguém, vou parar por aqui, pois todo mundo lá era gente boa, e não quero esquecer ninguém...!
Meu dia a dia era cheio de novidades… me descobri boa com as mãos ajudando a Iracy com os trabalhos de arte, que era criativa, quando embarcava nas viagens da Andrea, e ela me pedia “para embrulhar pra presente” as idéias dela, enfim, me encontrei uma pessoa mais feliz, muito mais habilidosa e empreendedora. Com o passar do tempo, nem lembrava mais que estava esperando a aposentadoria, não queria mais sair de lá.
Quando cheguei na Belmonte, havia uma sala, quase vazia, onde funcionava o Núcleo de Cultura Popular de Santo Amaro, que reunia de vez em quando cordelistas, repentistas, emboladores, xilogravuristas, contadores de causos, para saraus calcados na cultura nordestina.
Resolvi que aquela seria a minha sala e comecei a montá-la, junto com a Ana, a coordenadora que veio depois que infelizmente a Kyomi faleceu… uma tristeza, tão nova…
Primeiro resolvemos que ela não teria aquelas prateleiras horrorosas de metal, como nas outras salas e saímos procurando nas outras bibliotecas, todo o mobiliário em madeira que seria trocado e encontramos peças maravilhosas… Mesas, estantes, expositores, vitrines, cômodas, tudo muito do jeito que queríamos para a nossa Sala Temática.
Aos poucos a sala foi ficando linda. Como havia o recadastramento de todos os livros no sistema novo, o Alexandria, todos os livros de cultura popular foram sendo separados e levados para aquela sala. Fomos recebendo muitas doações de funcionários, parceiros, visitantes, do pessoal que vinha nas reuniões do Núcleo de Cultura Popular, e quando nos demos conta, estávamos com uma sala maravilhosa, cheia de objetos lindos e coloridos, onde as pessoas chegavam e algumas se emocionavam muito ao verem as bonecas de pano do norte e nordeste, as figurinhas de barro, algumas do Alto do Moura (preciosidades), cordões cheios de cordéis pendurados, redes, toalhas de crochê, cadeiras “vestidas de chita”, xilogravuras, bonecos de pau, tambores, e livros, muitos livros sobre tudo o que se pode imaginar da cultura popular. A partir daí e por isso, a Belmonte foi “promovida” a Temática em Cultura Popular. Ganhamos até prêmio por isso… outra história para eu contar depois...
Por isso, eu disse : Não sou de confiança?! vocês tem acordos a cumprir? QUE SORTE A MINHA!!
Eu fui para biblioteca esperar a aposentadoria, seriam apenas três anos, mas, fui ficando, ficando, amando cada vez mais aquele universo, cheio de cursos, oficinas, simpósios, concursos, saraus, encontros, festas típicas, e mais os eventos inéditos, espetaculares e inesquecíveis que saiam da cabeça efervescente da Andrea, que nos deixavam loucos tentando estruturar, viabilizar e ”fazer acontecer”... não tinha cansaço, não tinha fome, não tinha hora pra ir embora... quando enfim acontecia, nossa!! que alegria, ficava tudo lindo e dava certo!
Chegaram os meus 60, fiquei feliz de poder ficar até os 70 e, mais feliz ainda quando os juízes resolveram ficar até os 75 anos, assim pude ficar também, e estou agora, ficando aflita porque mais 3 anos eu chego aos 75 e daí não tem mais jeito… tchau meu amado trabalho!
Pouco antes da quarentena começar, não sei porque, o ritmo da biblioteca já não era tão vibrante como nos meus primeiros dez anos... talvez seja mais fácil quando eu tiver que sair... Vou ter que encontrar coisas pra fazer, tão gratificantes como as que faço hoje. Com certeza vou encontrar. SORTE A MINHA!!!
Dorinha Sanches Sant’Anna
São Paulo,Campo Belo, Quarentena Convid19
Maio,2020

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