FUI DE MOTO, ENCONTRAR PADIM PADI CIÇO…(Lembrancas da Quarentena14)
Em meio a muitas experiências muito agradáveis e enriquecedoras que tive nos primeiros anos de trabalho na Belmonte, fiz uma viagem para o Ceará, mais precisamente Juazeiro do Norte, para representar a biblioteca num evento super importante patrocinado pelo governo local, MESTRES DA CULTURA POPULAR, que nomeia e aposenta os grandes mestres da cultura popular, bem como premia com dez mil reais, instituições e ongs que se dedicam a projetos culturais no Brasil.
Como a Biblioteca Belmonte ganhou um desses prêmios e o pessoal do primeiro, segundo, terceiro escalão da Supervisão de Cultura, ou não podia, ou não queria ir, lá fui eu, toda feliz, participar do evento. Naquela época conhecia muito pouco do universo da cultura popular e viajei super animada com o que viria pela frente.
Tudo o que vi e senti naqueles quatro ou cinco dias de espetáculos, reuniões, debates, apresentações, almoços e jantares, foram muuuuito além das minhas expectativas. Gente!!! Como é rico, lindo, e diversificado o mundo da Cultura Popular Brasileira… A começar pela convivência… Almoçava e jantava com reis, caboclos, papangus, bois, pastoras, todos os personagens dos grupos que se apresentavam durante todo o evento, que já apareciam para o café da manhã, vestidos a caráter pois durante todo o dia, rolavam espetáculos de Reisados, Bois, Marinhadas, Maracatus, enfim todas as manifestações possíveis eu vi nesse festival.
Não eram só folclore, mas tinha também visitas a centros culturais, bodómetro (de bodes mesmo), academias de literatura, gráficas originais de impressão de cordéis, debates com escritores, pintores, artesãos, do barro, do couro, dos panos, dos bonecos, dos mamulengos, dos escritos, dos fios, das comidas típicas, enfim, um universo inteiro de coisas pra ver e sentir… e olha, como senti!!! como me emocionei com tudo o que vi, comi, dancei, escutei, foi um super, hiper, mega curso de cultura popular, que me deixou cada dia mais encantada.
Em passeios pela cidade, constatei como as pessoas do Ceará são cultas e bem educadas, falam um português corretíssimo, acredito que as escolas públicas de lá devam ser muito boas. As mulheres em geral são muito lindas, risonhas nos balcões das farmácias, da lojinha de lembranças, e as pessoas dos grupos folclóricos então? Eita gente mais bonita.
Passeei muito por lá... Como os eventos eram em Juazeiro e Barbalha, rodamos muito de ônibus, que delícia! fresquinhos com ar condicionado… lá estava um calorão, para chegar aos clubes esportivos, escolas, salões e outros locais preparados com muito carinho para receber todos os visitantes para os eventos oficiais.
Tudo muito lindo e interessante, mas para mim estava faltando uma coisa muuuuuuito importante:
- Eu estava em Juazeiro do Norte, só que dentro de todos aqueles eventos maravilhosos, não estava incluída uma visita à Estátua do Padrinho Padre Cícero!!!! Pode isso???!!!!
Ai, ai, ai… como é que eu poderia voltar pra São Paulo, sem ir lá na Colina do Horto ver a estátua, o museu, enfim, tudo de interessante num lugar desses… Pedi pra minha colega de quarto, para outros participantes do encontro, mas ninguém se interessou em ir comigo até lá…. Era longe e não estava “no pacote”.
O dia de voltar estava chegando e eu ia ficando aflita, pois não voltaria sem ver o Padim Ciço, então, no meio de uma das palestras, saí “à francesa” e dei o meu jeito.
Na beira da calçada, um monte de moto-táxi, lá em Juazeiro tem muitos. Foi meio difícil convencer um deles a me levar até a Colina, me esperar e me trazer de volta, mas depois de combinar um precinho bom pra ele e pra mim, lá fui eu, agarrada na cintura do moço, não tem cinto de segurança né? com um capacete apertado e fedidinho na cabeça, por uma estradinha de pedras soltas, completamente vazia, pois era dia de semana normal, morrendo de medo de “acontecer alguma coisa”, apesar de eu ser corajosa às vezes tenho pensamentos sinistros…
Cheguei finalmente lá em cima… meu Deus que limpinho, branquinho, enorme, esse Padim Ciço! Fiquei emocionada, aliás, sempre fico super emocionada quando encontro um dos ícones que ouço falar, sei da história, foi assim com a Igreja de São Francisco e Congonhas do Campo em Minas, com a Sagrada Família , com a Torre Eiffel… eita choradeira…. nossa tenho tantas lembranças boas ainda pra contar…
Lá na colina do Horto, fiz tudo que um romeiro comum faria: - tirei foto no degrau que deixa a gente com a cabeça na mão do padre Cícero, aliás, o mototaxista era péssimo fotógrafo... ficou tão horrorosa que nem sei que fim dei nela, fui ao Museu, na Sala dos Milagres, acendi vela, pedi e agradeci graças, vi a linda paisagem lá do alto e voltei tão feliz, mas tão feliz que cheguei cantando no hotel… Tava o maior auê!!!!
Como saí de fininho da palestra sem avisar ninguém, quando terminou, o pessoal da organização ficou desesperado me procurando pois, como é que uma senhorinha pode desaparecer assim, sem avisar ninguém?! Imaginem o sufoco daquele povo… Se fosse comigo eu ia matar essa danada dessa mulher que some assim sem avisar… Ainda por cima de longe, de São Paulo… Fiquei tão constrangida que nem falei nada que tinha ido sozinha lá pra colina me encontrar com Padre Cícero…
No dia seguinte, cedinho fomos levados para o aeroporto… estava com a mala pesada pois tinha comprado mais de duzentos cordéis… sabe, chegava um cordelista, oferecia e eu comprava meia dúzia, chegava outro era mais uns cinco ou dez, e a notícia correu… e como é que eu podia comprar de uns e não comprar de outros… créeeeeeeeedo, eu via de longe aquele homem com aquela malinha típica de cordelista e já dava um perdido nele, pois nem tinha mais dinheiro pra comprar tanto cordel…
No aeroporto lembrei que tinha esquecido de comprar um presepinho, daqueles pequenininhos que vem montado num pratinho, tão lindinho, com um Jesuizinho, um burrinho, uma grutinha, os reis, as ovelhinhas o galo, tudo bonitinho demais… fiquei simplesmente apaixonada por ele….não era tão caro no recinto do Encontro de Mestres, mas perdi o artesão de vista e não comprei na hora… que azar!! lá no aeroporto era “os olhos da cara”… pra turista né?! mas como que eu não ia trazer aquela lembrança tão linda ?! Eu trouxe!
Ainda bem que aceitavam cartão…
Todo ano, na época do Natal, monto meu presepinho no murinho da minha sala… tão lindinho e fico tão feliz, pois lembro da minha maravilhosa viagem para aprender Cultura Popular lá no Ceará e da minha fuga de moto para me encontrar com o Padim Cico… Puxa… como valeu!!!!!
Dorinha Sanches Sant'Anna
São Paulo, Campo Belo, Quarentena Convid19
Maio, 2020


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