COMO O PAGADOR DE PROMESSAS, TAMBÉM FUI PALMA DE OURO!! Lembrancas da Quarentena 15


Ano de 1962, o filme “O Pagador de Promessas”, dirigido por Anselmo Duarte, que tinha no elenco, entre outras estrelas nacionais, Leonardo Villar, Tarcísio Meira e Glória Menezes, Norma Bengell , foi indicado para o Oscar e a Palma de Ouro de Cannes.   Ganhou a famosa Palma de Ouro e aqui no Brasil, centenas de homenagens a este grande feito do cinema nacional.
Nesse ano eu estudava no Brasílio Machado e sempre participava de quase todas as atividades extra-aulas. Eram muitas, entre elas, eu jogava vôlei… rsrsrs com esse meu tamanho, pode??, participava da fanfarra que desfilava nos “7 de Setembro” no Pacaembu, e fazia parte do grupo de alunas que faziam ginástica rítmica, os mais velhos vão  lembrar daquelas apresentações maravilhosas nas festas do dia da pátria. 
Pois é, uns três meses antes do desfile, já estávamos ensaiando a ginástica, a fanfarra, era uma delícia… no primeiro mês, quase todo dia ensaio na quadra poliesportiva da escola, depois,  fazer barulho no teatro,  com o ensaio da fanfarra… eu tocava caixa… . O Brasílio Machado era uma escola muito bem equipada! Tinha quadras, teatro, laboratório de química, instrumentos musicais da banda… não sei se continua com tudo isso, tomara que sim.
Um mês antes da apresentação, já íamos ensaiar no Pacaembu. Gente! que farra a gente fazia naquele ônibus que nos levava e trazia de volta. A fanfarra ia tocando e todos nós, o povo da fanfarra e da ginástica,  um monte de meninos e meninas na flor  da adolescência cantávamos letrinhas que naquele tempo… anos sessenta…  eram consideradas pornográficas… hoje seriam só engracadas.
Que tempo maravilhoso que é a adolescência né?! Tudo é alegria, brincadeira, diversão, tudo é leve e feliz. É claro que existem também os dramas de adolescentes e eu tinha um grande drama… Eu não tinha peitos ainda… ou melhor, tinha um “ovo frito” como caçoavam de mim minhas colegas de ginástica que não por acaso eram as mesmas do vôlei e tinham peitos bem desenvolvidos. Todas já tinham um corpinho de mocinha e eu de criança… 
Bem chegou o dia da apresentação, e sabe qual era a figura que íamos formar naquele ano??! Um luxo o figurino: um vestidinho curtinho, azul royal escuro, todo em cetim , com forro amarelo ouro, mais um shortinho do mesmo amarelo… isso ia ser a surpresa do fim da apresentação.
Depois de 35 minutos de ginástica com arcos, bolas, muita corrida pra lá e pra cá, conforme mandava a música, a formação de uma imagem que não fazia muito sentido…. mas, no momento  que todas as meninas se deitaram no chão, uma parte delas levantou a sainha do vestido até o pescoço e a surpresa foi linda, o que se viu foi a imagem da Palma de Outro toda dourada no meio, e eu era um dos grãozinhos da espiga... que orgulho! com uma moldura azul brilhante. A luz dos holofotes em cima das meninas deu vida a figura. Foi um delírio para a plateia que lotou o Pacaembu
e, sabe quem estava lá assistindo tudo? Anselmo, Leonardo, Glória e Tarcísio, fora as autoridades da época… Nós, que fizemos a apresentação não tínhamos idéia de como tinha ficado o quadro, só vi depois, nas fotos e achei simplesmente lindo! Pena que não tenho foto nenhuma,  nem do figurino. Procurei no “gugo” mas não encontrei…  acho que não tem mesmo ou eu não sei pesquisar direito.
Bem, nas minhas histórias, quase sempre tem uma grande lição, uma grande alegria ou um grande mico e nesta, tem sabe o que? um orangotango, de tão mico que foi! AffffMaria, esse foi inesquecível… Imagina uma menina bem miudinha, se vestindo para o “grande espetáculo” no meio de um monte de mocinhas peitudas, acinturadas, pernudas… nossa, eu parecia menor ainda do que eu era, então tive uma graaaaande idéia!!! 
Entrei no banheiro,  enchi meu sutiãzinho de papel higiênico, sabe aquele antigão, cor de rosa?!  e saí toda satisfeita com meus peitos novos… nossa,  fiquei tão feliz de estar um pouco parecida com as outras moças...  e lá fui eu para a apresentação me achando maravilhosa. Foi tudo lindo, estávamos todas emocionadas e,  ao sair do gramado, fomos nos sentar na concha acústica para esperar o fim das comemorações para irmos embora. A última coisa que me lembro é de estar tomando um sorvete de limão, debaixo de um solzão, calorão de uns 40 graus.
Quando dei por mim de novo, estava com insolacão no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas, com um frasco de soro ligado na minha veia,  mãe e pai do meu lado. A primeira coisa que eu fiz, foi tocar meus peitos, pra ver se eles estavam lá, mas… alguém tinha tirado o papel higiênico… meu Deeeeeeus, que vergonha…. quem será que tinha visto?! Quando o soro acabou e chegou a hora de eu ir pra casa, veio uma enfermeira tirar a agulha e chegou perto do meu ouvido e disse : “não fica preocupada, só eu, o médico e os enfermeiros da ambulância que vimos” nooooosssssa, eu queria morrer... cinco pessoas!!! Ah… seu pai também viu. Já imaginaram a cara deles quando viram "aquilo?" Vocês imaginam o que era a cabeça de uma mocinha em 1962?!! Meu pai tinha visto!!!!! Foi a maior vergonha que eu passei na minha vida… essa sim foi a maior… tanto que quando vejo alguma notícia sobre a Palma de Ouro, ou O Pagador de Promessas, ou Leonardo Villar,  Tarcísio e Glória, ou Anselmo Duarte, sempre lembro dessa passagem…
Hoje a vergonha já passou eu acho engraçado, só ficou o orgulho e a alegria de ter participado daquele evento, e de muitos outros tão importantes, na minha infância… Tem uma meia dúzia que eu ainda vou contar pra vocês.


Dorinha Sanches Sant'Anna
São Paulo, Campo Belo, Quarentena Convid19
Junho, 2020

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