NA MINHA QUARENTENA
Minha quarentena começou muito antes da quarentena... isso mesmo, dia 06 de janeiro, dia de reis, caí e quebrei meu pé... resultado, estou de quarentena desde janeiro... longa né? Quando sarei e pude voltar a trabalhar, veio a triste notícia que deveria continuar em casa... justo eu que sou super ativa, trabalhando em uma biblioteca temática em cultura popular, cuidando justamente da programação cultural... trabalho variado e muuuuito interessante. Como moro sozinha, o que foi pior, foi ficar sem abraços e beijos dos meus filhos e netos, que vinham todos os fins de semana, mas isso acabou... Sem meu trabalho, sem meus netos, sem minhas grandes paneladas de comida pra fazer no fim de semana, sem fazer a programação cultural da Belmonte, nem diagramar, pesquisar fotos e releases, sem fazer os cartazes, nem a divulgação, nem agendamentos, nem atender os pesquisadores da biblioteca e conversar horas e horas com eles, resolvi começar a escrever as histórias que contava lá no meu trabalho.Em um mês, escrevi 15 e o que fazer com elas? Fiz um blog: dorinhasantanna.blogspot.com e para a minha surpresa, num pequeno espaço de tempo tive mais de duzentas visitas…Nossa, que coisa boa! Fiquei ainda mais animada para escrever mais coisas.
É lógico que ninguém gosta de ficar confinada, eu por exemplo, até sábado passado, não tinha posto o pé pra fora do portão nenhuma vez... há quase cinco meses, peço tudo pelo delivery: verduras, legumes, frutas, num lugar, carnes em outro e produtos de limpeza noutro, pois faço minha comida, limpo a casa, trabalho em home office, e ainda escrevo meus textos, então isso me distrai o tempo todo… e assim vou levando minha quarentena.
Sexta feira passada tive uma notícia que me deixou passada... uma amiga Querida, pessoa muito legal, alegre, participativa, na quarta feira teve uma indisposição, foi levada para o hospital, o diagnóstico, um problema sério nos intestinos e fígado, foi operada e na sexta faleceu. Puxa vida, com essa pandemia maldita, qualquer um está sujeito a pegar o covid19 e morrer de repente, mas de uma doença descoberta num dia e a pessoa vir a vir a falecer dois dias depois!!! ninguém está preparado para aceitar… Como dói… Deu um nó na minha cabeça... puxa vida a gente se guarda, se priva dos prazeres da convivência com os entes queridos, de sair para tomar um sol, dar uma volta no quarteirão, para se proteger e proteger os outros, e de repente, uma doença aparece de repente e leva a gente embora, sem despedidas, abraços, adeus, nada… Estou muito, muito, muito triste! Não tenho nem ânimo pra falar com a família dela… dizer o que?? nessas horas um abraço é tão importante, um olhar bem no fundo do olho que diz “estou com você” … mas nada disso foi possível...
Sabe o que decidi? vou amolecer minha quarentena... vou dar voltas de carro, vou até a porta da casa dos meus amigos, buzinar até aparecerem nas janelas para eu poder gritar muito de alegria, mandar beijos e abraços de longe, vou ver os lugares que eu gosto, e ver meus netos, mesmo que de longe, ou de perto, talvez.
Já comprei uma caixa com 50 capas de chuva, daquelas de ir nos jogos ou shows e... chega de falta de abraços....a cada filho, neto ou amigo que aparecer aqui na minha porta, vou vestir uma das capas e abraçar muuuuito todos eles... isso vai carregar muito minhas energias e emoções.... dia 24 ou 25 chegam as capas, então vou chamar todo mundo que eu quero abraçar... Garanto que minha quarentena vai melhorar muuuuuito. Ah... Se passarem no Campo Belo, venham me abraçar também tä bom?? Um beijo pra vocês.
Dorinha Sanches Sant'AnnaSão Paulo, Campo Belo, Quarentena Covid19
Junho, 2020



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