TE AMO MINAS GERAIS, AMO OS TEUS TESOUROS TAMBÉM ! ( Lembrancas da Quarentena 16)


1985, outubro, feriadão…  viagem às cidades históricas de Minas Gerais, num ônibus de excursão da CVC, lotado de jovens senhoras tagarelas,  professoras que comemoravam o Dia do Funcionário Público falando e rindo muito alto, e nem davam atenção ao simpático guia, que se esforçava muito para se comunicar com todos, mas sem sucesso.
Na segunda parada do ônibus, ao perceber que só havia dois pares de olhos em sua direção, os meus e os do Renato, ele veio sentar-se no braço de nossas cadeiras e passou a exercer seu ofício apenas para nós.
A cada igreja que visitamos, a cada altar, monumento, ou nova cidade, tínhamos aulas de história do Brasil, da política da época colonial e as intrigas da corte , dos costumes, das artes, dos artistas e artesãos, das esculturas e pinturas, dos monumentos,  enfim, tivemos uma viagem riquíssima em detalhes que, muitas vezes passam batidos aos olhos leigos.
Fomos direto para Belo Horizonte, e logo na manhã seguinte saímos para Sabará, Mariana, Ouro Preto, São João Del Rei, Congonhas do Campo e mais algumas que não lembro mais.
Vimos muitas igrejas completamente forradas com ouro, pinturas, entalhes,  e o guia nos mostrava os detalhes interessantes, como: “ aquele anjinho tem o rosto do conde fulano que era desafeto do padre, aqueles santos e o burrinho,  tem olhos puxados, por terem sido pintados por um artista chinês,  lá em cima daquele altar tem um carneirinho feito com quase trinta quilos de ouro…” coisas que normalmente não mostraria para as pessoas de uma excursão comum, afinal, ele estava com nossa atenção total e se esmerou nas narrativas… as professoras barulhentas, nem prestavam atenção em nada, queriam comprar, comprar , comprar,  lembranças,  panelas, cristais, comidas,  potes, e montes de quinquilharias. Sorte nossa que estávamos tendo maravilhosas aulas de arte barroca, sacra, arquitetura  colonial, vida do Aleijadinho, de Mestre Ataíde, dos pintores chineses, das políticas  da corte, enfim, adoramos tudo o que vimos e ouvimos. 
Em cada cidade,  detalhes muuuuuito interessantes… Em Congonhas do Campo as três capelas, com as três esculturas de Jesus diferentes, um loiro com olhos azuis, outro moreno com olhos castanhos, outro com olhos verdes, tudo muito bem justificado pelas histórias  do guia, incluindo até as da maçonaria…
Na Gruta de Maquiné, que coisa mais maravilhosa… com iluminação nova…  estávamos em 1985, lembra?…  sem falar sobre a comida espetacular no restaurante bem pertinho na gruta… comida mineira é demais, não é não?!
No último dia, fomos a Igreja de São Francisco, sabe, aquela
que ficou mais de 24 horas na tela das tvs durante os dois dias do velório do Tancredo Neves? Pois é, essa! em São João del Rei, vimos o solar dos Neves, onde morava a viúva, Dona Risoleta, e de onde eu trouxe uma muda da planta trepadeira do arco do portão. Vimos o túmulo de Tancredo no cemitério da Igreja  e o guia nos mostrou centenas bilhetinhos com  pedidos de milagres, feitos por pessoas que acreditam na santidade dele.  
Foi aí que aconteceu o fato mais marcante dessa viagem a Minas. Entramos na Igreja de São Francisco,  nós e as professoras barulhentas, que logo se espalharam pela igreja e aos poucos foram saindo, e nem viram o que estava acontecendo no altar… Um enorme lustre de cristal, estava sendo desmontado para limpeza. Centenas e centenas de peças de cristal espalhadas sobre um tapete escuro bem no meio do altar e várias pessoas limpando uma a uma, com cuidado e carinho. Que coisa mais linda… Aquele montão de quadrados, losangos, lágrimas, prismas, bolas, tubos, triângulos, franjas, enfim milhares de formas em cristal, brilhando muito no chão e aquelas pessoas, fazendo um lindo trabalho, encantadas com peças que limpavam carinhosamente.
Eram mais ou menos umas cinco, cinco e pouco da tarde e o sol  se pondo entrava no espaço e batia sobre as peças e o milagre acontecia… a luz do sol se decompunha nos cristais e salpicava as paredes, as pessoas, os santos, tudo enfim com pontinhos brilhantes e multicoloridos. Ficamos tanto tempo lá olhando em silêncio… Deus do céu, acho que nunca vi coisa tão linda, celestial e emocionante, nem nas mesmas cores lá na Foz do Iguaçu, que cá pra nós, também é lindo né?! Foi o último passeio em Minas…
Voltamos pra São Paulo naquela mesma noite. Fomos para o hotel e eu ia levando um tesouro nos olhos, na alma, na máquina e no coração. Eu já tinha me apaixonado por Minas Gerais no caminho de ida… Aquelas montanhas e rios são lindos e, é claro, já vim fotografando pelo caminho… a minha máquina fotográfica era daquelas antigas…  
Cada foto! que eu nem acreditava… das igrejas riquíssimas, das pinturas, dos santos, dos olhos dos  três Jesus, do lustre, dos cristais brilhantes, enfim acho que umas 500 fotos, ou mais… Vocês já estão desconfiando o que aconteceu né?! Pois é, quando chegamos em São Paulo cadê a máquina??? Sumiu!!! Meu Deus do céu!! Que tristeza eu fiquei… Chorei tanto, tanto, tannnnnto… Ligamos para o  hotel, a agência da CVC, o ônibus, para algumas professoras da turma,  para um monte de lugares, mas… a máquina sumiu mesmo…


Bem, foram-se as fotos mas, ficaram as lembranças… Graças a Deus eu ainda as tenho. Agora então, estão gravadas pra sempre, no meu coração e na nuvem…. e viva a tecnologia!!!!
Dorinha Sanches Sant'Anna
São Paulo, Campo Belo, Quarentena Covid19
Junho,2020

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